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Pesquisa histórica sobre descoberta de toxina é homenageada na Faculdade de Medicina

4 de novembro de 2019

Imagem: Os professores Aldo Ângelo Lima e Manassés Claudino Fonteles iniciaram as pesquisa em parceria no ano de 1981 (Foto: Divulgação)Há quase 40 anos, uma pesquisa importante para os estudos sobre doenças intestinais era iniciada no Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal do Ceará, resultando na descoberta de uma enterotoxina bacteriana diretamente relacionada a infecções entéricas severas em crianças.

A pesquisa nasceu da parceria entre os professores Manassés Claudino Fonteles e Aldo Ângelo Lima, em 1981, quando este ainda era aluno de pós-graduação recém-egresso de uma residência em doenças infecciosas. Na época, definiu-se que a dissertação de mestrado do hoje Prof. Aldo seria baseada em estudos renais das toxinas da cólera e da bactéria Escherichia coli.

Para ter acesso à E. coli, os pesquisadores a isolaram de fezes diarreicas de crianças do município de Pacatuba, no Ceará. O processo resultou na obtenção de uma enterotoxina termoestável (STa), da qual a bactéria é produtora, associada às infecções intestinais. Ainda hoje, os pesquisadores possuem cultura da bactéria, congelada em laboratório.

Já nos primeiros testes, foi constatado que, mesmo em forma impura, a enterotoxina STa da bactéria causava profunda natriurese (aumento da excreção urinária de sódio), caliurese (aumento da excreção de potássio) e diurese (aumento da produção de urina pelo rim). Esses resultados foram apresentados no XVIII Congresso da Sociedade Brasileira de Fisiologia, em Minas Gerais, em 1983.

Posteriormente, fazendo análises sobre as guanilinas (peptídeos sintetizados no intestino que regulam o balanço do sódio por ações renais) nos rins de ratos, os pesquisadores confirmaram que a toxina tem efeito nesses receptores endógenos, estabelecendo a relação entre intestino e rim. A ideia de associar os dois órgãos surgiu de uma concepção do Prof. Manassés de entender o intestino como um grande néfron (estrutura funcional do rim), apresentando semelhanças fisiológicas.

“É uma pesquisa que tem início por conta de um problema comum no campo, onde há doenças de infecção intestinal. É um problema que leva à diarreia crônica”, explica o Prof. Aldo Lima. “Uma vez que há muita morbidade no campo [por conta disso], o problema foi trazido para o laboratório”, diz.

A descoberta, além de gerar diversas publicações ao longo dos anos, levou ao desenvolvimento de novos fármacos, como o linaclotide e o plecanatide, ambos aprovados pela Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, utilizados para o tratamento de constipação e dor abdominal por complicações resultantes de doenças como cólon irritável e constipação idiopática crônica.

HISTÓRICO – Antes da chegada do Prof. Aldo Lima ao Departamento de Fisiologia e Farmacologia, a atenção do Prof. Manassés Fonteles, que trabalhava na época com o fisiologista americano Julius Cohen, estava somente na atuação dos rins. Isso mudou quando, em 1979, o pesquisador assistiu a uma reunião na Universidade de Oxford sobre a negligência que sofriam as doenças diarreicas.

O interesse do professor pelo tema nasceu do fato de essas patologias serem responsáveis pela mortalidade infantil em diversas regiões no mundo, inclusive no Ceará, mas que não recebiam a devida atenção da indústria e da pesquisa farmacêutica. A sugestão de passar a testar a toxina da cólera (infecção intestinal), entretanto, foi negada pelo Prof. Cohen, que a considerava uma toxina demasiadamente perigosa. O início do projeto de pós-graduação do Prof. Aldo Lima foi, então, a oportunidade de realizar a pesquisa.

Imagem: Para homenagear a pesquisa histórica foi descerrada uma placa de registro do local de descoberta da toxina STa da Escherichia coli (Foto: Divulgação)DESCERRAMENTO DE PLACA – Para homenagear a pesquisa histórica dos professores Manassés Fonteles e Aldo Lima, foi descerrada uma placa de registro do local de descoberta da toxina STa da Escherichia coli. O descerramento foi feito no dia 17 de outubro, no Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Faculdade de Medicina da UFC.

“É uma homenagem que me deixa bastante feliz, porque é um reconhecimento de um trabalho árduo, dedicado e de muita persistência para chegar nesses resultados de novos fármacos”, comemorou o Prof. Aldo, que ainda hoje estuda o problema das infecções intestinais, tendo recentemente participado de uma cooperação internacional para estudos sobre como melhorar a microbiota de crianças desnutridas.

 

Fonte: Prof. Aldo Lima, da Faculdade de Medicina – e-mail: alima@ufc.br